Sabor, Cine & Cia – Vicky Cristina Barcelona

Só sei o que não quero

Poe Paulo Bracarense

Um filme de 2008 de Woody Allen com narrador, bem típico. Duas amigas americanas vão para Barcelona para dois meses de verão. Vicky (Rebecca Hall) pelo seu afeto à obra de Gaudi dedica seu mestrado a estudar a “Identidade Catalã”. Cristina (Scarlett Johansson) ocasionalmente pode escrever, dirigir um filme e mesmo atuar nele. Está sempre em busca de se encontrar. Não sabe bem o que quer, mas parece sempre saber o que não quer.

Vicky deseja ser segura no amor e está programada para um casamento com um noivo bem sucedido. Cristina espera justamente o oposto. Aceita inclusive sofrer de amor. Elas vão ficar durante os meses de julho e agosto na casa de uns parentes de Vicky que vivem na Espanha.

Antes de o filme completar quatro minutos é servida a primeira das muitas refeições que serão apresentadas em diferentes ocasiões da história. Quase sempre regadas a vinho. Embora não se trate de um filme sobre comida espanhola ou sobre vinhos eles estarão sempre presentes para deleite dos gourmands. É quase como um jogo descobrir o que está sendo comido e bebido, pois não se mostra ou se fala nisto claramente. Vinhos tintos, brancos e Jerez. Em um momento cerveja noutro um brandi.

Durante uma exposição as amigas conhecem Juan Antonio, um personagem ótimo de Javier Bardem. Ele faz o pintor latino meio libertino: um Picasso menor. Estará sempre envolvido com muitas mulheres. Ele acabou de se separar de sua explosiva esposa Maria Elena interpretada por Penélope Cruz.

Juan Antonio acaba convencendo as amigas americanas para um final de semana em Oviedo nas Astúrias. O Principado fica entre a Galícia e o País Basco no norte da Espanha. As paisagens são belíssimas. Mais comida e mais vinhos. “Doces caseiros e deliciosos”. A bebida típica da região é a Sidra, cujo correspondente normando na França é o Calvados, um destilado da maçã.

A trama psicológica, bem própria dos filmes de Woody Allen, conduz a diálogos carregados de originalidade e a cenas insólitas. Em torno do pintor forma-se uma espécie de quadrilátero amoroso envolvendo as três lindas mulheres. Penélope Cruz está exuberante. A cena em que está pintando com pouquíssima roupa é reveladora de sua força interpretativa. Scarlett Johasson nunca esteve tão bonita. Mas é a novata Rebecca Hall na pele da contida e contraditória Vicky quem rouba todas as cenas.

Em busca da identidade catalã, Vicky vai a mercados populares e cozinhas em Barcelona. Visita exposições de artes, museus e as principais obras de Miró e de Gaudi. É um belo presente para quem assiste ao filme.

Um destaque para a cena em que Vicky e Juan Antonio estão jantando em um adorável restaurantezinho em Oviedo e encontrando uma forma de se suportarem enquanto Cristina se recupera de uma crise de gastrite. Vicky recebe uma ligação do noivo. Aqui também  não se consegue ver o que comem. A garrafa de vinho só é mostrada de relance. Para disfarçar o constrangimento da ligação, ela pergunta que vinho estão tomando? Mas o jogo de esconde-esconde do diretor continua e Juan Antonio não dá importância à pergunta, voltando a desafiar a fidelidade da noiva ao futuro marido. O desfecho da trama é, como se supunha, o menos esperado.

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